Pular para o conteúdo principal

A crise existencial e seus delírios.



     Bem, aqui estou eu sentado no meu sofá, assistindo ao bailar suave dos meus 25 anos se esvaindo lentamente como final de neblina duma manhã típica de outono. Não me afligiria tanto se certas inquietações não passassem de mera superestimação de minha parte. Decerto tudo parece estar entrando em pane mundo afora, e tudo me arrasta para um estágio desconhecido do "agora". Tenho amigos que já não vejo há mais de sete anos; de fato, há pessoas importantes em minha história de vida que já não vejo pessoalmente há muitos anos. Não me pergunto, entretanto, o que fazem elas da vida, visto que as redes sociais estreitaram os laços entre a humanidade. Creio eu, no extremo da minha humildade que o problema começa quando nossas memórias mais vívidas dessas pessoas (geralmente as memórias dos últimos contatos antes das bifurcações do acaso) se chocam com a realidade dissemelhante que já nos circunda lá fora sem ao menos percebermos. Acontece aí o que classifico como um "choque de realidade".

     Hoje resolvi procurar no Facebook por um amigo das "rodas de violão" da época de escola, e até que não me surpreendi com o fato dele ainda ostentar a mesma aparência de seis anos atrás, contudo tanto ele como seu irmão gêmeo (a quem também tenho estima) se encontram casados. Um deles, aliás, já tem uma filha. Longe de qualquer um de nós procurar ditar como cada ser humano deve iniciar sua jornada no futuro rumo ao eterno vazio do eterno. São essas pequenas mudanças, entretanto, que desencadeiam a Crise Existencial para muitos de nós. É indiscutivelmente simples viver num presente quando este nos traz deleite e elevação dos nossos instintos mais sublimes, quando pouco ou quase nada nos parece faltar. Vemos o futuro acontecer (e é muito repentino) quando sem quaisquer chances de sequer respirar somos jogados num cenário hostil e inconsistente, onde tudo parece acontecer e mudar "rápido demais" (olhe para a tua vizinhança e veja como as novas gerações crescem tão depressa!).

     Creio firmemente que você já se apanhou desejando que certo momento especial do seu passado pudesse tornar a acontecer ao tocar vagaroso da ponta dos seus pés no chão ao se levantar da cama logo amanhã ao alvorecer. Certamente o sentimento que se espalha pelo seu interior é de que tudo tem sucedido fora de ordem, como se o presente fosse o futuro e seu real presente estivesse alocado no passado, separado por uma grade, sem possibilidade de voltar até ele. Creio que é daí que surgem frases como "Nossa, parece que foi ontem!" e "Como o tempo passa rápido!". Sempre me perguntei se pessoas que tiveram suas adolescências nos anos 80 olham para trás e sentem o peso do tempo, que tudo ocorreu em seu devido lugar, em harmonia com o cosmos. Hoje eu acredito que muitas delas diriam que não. Mas, a verdade é que o tempo pesa, e pesa muito. Não na escala temporal da vida, é claro, mas sobre nossos ombros.

     Muitos assemelham a Crise Existencial à conturbada e super atarefada vida adulta, surge então aquela dúvida tão clichê do "A criança que fui se orgulharia do adulto que eu tenho me tornado?". E, embora essa conturbação traga para alguns o desespero de maneira intermitente através do tempo, elas não levam embora a capacidade de aceitar e lidar com o presente acaso. Não há mal algum em questionar-se se o que tens se tornado é mesmo, de fato, o que gostaria de estar cunhando. A diferença chave que se destaca na Crise Existencial é justamente a relutância em aceitar o presente como ele se sucede, é vaguear pelo mundo lá fora, por caminhos já consagrados como parte de nossa rotina e perceber que já não mais os conhecemos ao correr das décadas. É interessante como isso se faz presente naquele clássico pensamento: "Como esse lugar mudou!". Olhe para dentro de si, em análise de ti mesmo, e verás: se a Crise Existencial é algo que lhe aflige, então "como" é uma palavra que tem aberto o parágrafo de muitas das suas angústias.

Obs: Este artigo é baseado em minhas experiências e ideias, sendo assim passivo de discordância sobre o que é uma crise existencial.

                         Muito obrigado pela leitura, volte sempre que quiser inquietar-se!


Comentários